No passado dia 1 de junho, a Polícia de Segurança Pública (PSP) e a Câmara Municipal de Portalegre acharam por bem celebrar o dia da criança, convidando menores de idade pré-escolar a simular um motim. Uns fingiam ser polícias, munidos com capacetes e escudos da Polícia de Intervenção; outros fingiam ser manifestantes, sem indumentária especial, apenas com pedaços de papel enrolados, arremessados como se fossem pedras da calçada.
A cena remetia para a carga policial contra as manifestações ocorridas durante a greve geral de 14 de novembro de 2012, responsável por dezenas de feridos e diversas detenções ilegais.
Estas ações encontram-se longe de constituir meros episódios, sendo diversos os exemplos de simulações idênticas organizadas pela PSP em estabelecimentos de ensino. Estes, na realidade, parecem assumir-se como espaços mais de endoutrinação (inclusive empresarial) e controlo (vejam-se as rusgas policiais realizadas numa escola em Sintra) do que de aprendizagem e conhecimento.
Apesar de ter admitido rever a utilização de material policial por parte das crianças, a PSP defendeu este tipo de eventos, dado tratarem-se de “cenários através dos quais se procura transmitir aos alunos comportamentos civicamente adequados”. À luz dos recentes acontecimentos do passado dia 17 de maio, em que elementos da PSP agrediram adeptos do Benfica, não será difícil adivinhar o significado que atribuem a “civismo”: o permanecer-se passivo, mesmo quando as mais básicas liberdades (permanecer na via pública, manifestar-se, festejar) são violadas pelas autoridades policiais.
Ao contrário do que se verificou em Lisboa e Guimarães, a simulação de Portalegre decorreu de forma pacífica. As crianças cedo deixaram de ser polícias e manifestantes, boas e más cidadãs, pacíficas e violentas, e limitaram-se a brincar umas com as outras. Sem escudos, nem capacetes.



