Ocupação policial do bairro 6 de Maio

PSP faz mega operação de combate ao tráfico de droga na Amadora e Sintra

Anunciada com pompa e circunstância, transmitida na televisão com directos a partir do local, a operação realizada esta semana pela PSP, no Bairro 6 de Maio (Amadora), voltou a retratar o racismo institucionalizado nos meios policiais e jornalisticos portugueses. Em todos os noticiários e órgãos de comunicação social se informou, como se fosse a coisa mais natural do mundo, que a polícia cercou um bairro durante uma manhã inteira, impedindo os seus moradores de ir trabalhar ou de levar os filhos à escola.  Com o aparato costumeiro – 200 agentes, incluindo o Corpo de Intervenção e o Grupo de Operações Especiais – a PSP não hesitou em tratar como potenciais criminosos toda a gente que circulava ou habitava na área, efectuando mais de 30 buscas domiciliárias no que apresentou como a  conclusão de uma investigação «iniciada há seis meses». Segundo o Correio da Manhã, «um veículo blindado, comprado para a cimeira da NATO de Lisboa em 2010, foi utilizado para evitar ataques com armas de fogo».

Bairro 6 de maio 2

Da «operação» resultaram oito detenções (uma das quais de um imigrante indocumentado), a apreensão de 3 armas de fogo (duas caçadeiras e uma pistola), €6000 euros, bem como aquilo que a própria PSP descreve como «200 Doses de produto estupefaciente suspeito de ser Haxixe» e «800 grs de produto indeterminado». A PSP também nos informa que estas oito pessoas e outros dez arguidos terão sido apresentados a tribunal, mas a sua assessoria de comunicação não teve a gentileza de nos fazer saber o que ali terá sido decidido. A comunicação social, seguindo insondáveis critérios noticiosos, revelou-se satisfeita com as imagens sensacionalistas que lhe foram facultadas e deu por concluído o seu trabalho, sem se interrogar  relativamente à aparente desproporção entre os meios empregues e os resultados alcançados. As questões mais substanciais – como a de saber em que critérios judiciais se basearam os mandatos de busca a 33 casas que redundaram nestas apreensões e se os mesmos autorizavam o sequestro da população do bairro durante uma manhã inteira – ficaram evidentemente por colocar.

blindado

Esperar dos jornalistas de serviço que façam as perguntas a que a polícia não quer responder seria porventura excessivamente ingénuo, mas a forma como se banaliza uma evidente e arbitrária suspensão dos direitos de centenas de pessoas apenas porque elas são pobres, sugere que a operação de propaganda e intimidação levada a cabo pela PSP é uma rotina que veio para ficar. Dos tribunais também pouco há a esperar, uma vez que ainda não há muito tempo foi possível ouvir uma magistrada do Ministério Público garantir que «em Portugal não existe racismo».  E neste clima de guerra de baixa intensidade contra os pobres da periferia de Lisboa se vai banalizando a categoria de «bairro problemático», de forma a fazer esquecer que aí moram pessoas iguais às outras, com as mesmas aspirações a uma vida digna, livre de estigmas e agressões policiais. Há um ano, a PSP foi acusada de agredir um rapaz de 15 anos deste mesmo bairro, que acabou por morrer no hospital, duas semanas mais tarde, devido a lesões cerebrais. «Operações» destas e o respectivo tratamento mediático, que desumanizam os moradores e lhes negam os mais elementares direitos, levam a pensar que tudo se poderá voltar a repetir num futuro próximo.

bairro 6 de maio

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